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Papilomavírus Humano (HPV)
Prof. Dr. José Focchi*;
Dra. Adriane Cristina Bovo** & Dr. Ismael Dale C. G. da Silva***
A história natural da infecção pelo Papilomavírus
humano (HPV) no trato genital inferior é ainda mal compreendida.
Estudos de biologia molecular têm demonstrado que 20 a 40% das mulheres
jovens sexualmente ativas são portadoras do DNA viral em seu trato
genital na forma latente, sugerindo que, na maioria das vezes, a exposição
ao vírus não resulta na expressão clínica
persistente da doença. Acredita-se que possa ocorrer uma fase inicial
de replicação viral ativa, com duração média
de nove meses, que ocasiona a formação de lesões,
seguida por uma queda desta replicação que, associada à
resposta imunológica da paciente, causam a remissão da doença,
mantida, a partir daí, em latência.
Atualmente, desconhece-se tratamento antiviral específico capaz
de erradicar o vírus do trato genital inferior. Estudos estão
sendo realizados com o intuito de desenvolver vacinas preventivas, porém
o grande número de tipos de HPV que podem infectar o trato genital
inferior constituem grande obstáculo na sua elaboração.
Mais de 30 tipos virais já foram identificados na genitália
humana, sendo divididos em categorias de alto ou baixo risco, conforme
seu potencial oncogênico. O grupo considerado de alto risco inclui
os tipos: 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 58, 59 e 66, com destaque
aos tipos 16 e 18. O grupo de baixo risco inclui os tipos 6, 11, 34, 40,
42, 43 e 44.
A partir da década de 80, diversos estudos comprovaram a relação
da infecção pelo HPV com as neoplasias do trato genital
inferior. Esse fato levou a uma excessiva preocupação por
parte dos médicos clínicos e patologistas, o que promoveu
grande número de diagnósticos falso positivos. Também
entre a população não médica, inúmeras
publicações têm sido frequentemente veiculadas, algumas
sem embasamento científico correto, causando alarmismo às
pacientes.
Por esses motivos, acreditamos que frente à uma paciente com diagnóstico
de HPV, antes do tratamento propriamente dito, alguns cuidados devem ser
considerados:
Excluir a possibilidade de falso-positivo, evitando-se tratar pacientes
com exames citológico, colposcópico e histopatológico
discordantes. Caso seja possível, realizar exames de hibridização
molecular para definir tipo de HPV e sua carga viral. Evitar tratar projeções
papilares fisiológicas do intróito vulvar, frequentemente
confundidas com lesões micropapilares HPV induzidas. Este constitui-se
hoje no principal erro no tratamento clínico do HPV, causando em
alguns casos vulvodínia e disfunções sexuais graves.
Esclarecer à paciente sobre o baixo potencial oncogênico,
considerado inferior a 1% nos casos de HPV não oncogênico.
O risco é considerado alto somente para pacientes portadoras de
HPV oncogênicos (16 e 18), com altas cargas virais persistentes,
com lesões presentes e alterações genéticas,
em especial a mutação da p53.
Não tratar infecção latente em hipótese alguma.
O uso mais rotineiro de métodos de biologia molecular para diagnóstico
do HPV, tem aumentado o número de pacientes positivas para o DNA
viral que apresentam-se sem lesões. O tratamento da infecção
pelo HPV baseia-se ainda na destruição ou extirpação
de lesões, sejam elas clinicamente detectáveis (condilomas)
ou diagnosticadas com auxílio da citologia e colposcopia (lesões
subclínicas).
Solicitar avaliação do parceiro sexual, esclarecendo que
apesar de tratar-se de doença sexualmente transmissível,
outras formas de transmissão não foram definitivamente descartadas
como fômites, assentos sanitários, etc. Além disso,
o aparecimento de lesões atuais podem representar a reativação
de uma infecção latente de longa duração,
não implicando necessariamente em promiscuidade da paciente ou
do parceiro. Tal cuidado é essencial para manter a confiabilidade
e uma vida sexual adequada entre o casal. O uso de condom é recomendado
principalmente na presença de lesões clínicas, consideradas
altamente infectantes. Lesões subclínicas são consideradas
pouco infectantes e o uso do condom é questionável se o
parceiro sexual for único, uma vez que já houve exposição
ao vírus anteriormente ao diagnóstico. Atualmente, acredita-se
que a infecção latente não seja transmissível.
Conforme descrito acima, apenas a infecção clínica
e subclínica são passíveis de tratamento. A erradicação
das lesões pode ser feita por diversos métodos, não
sendo, no entanto, nenhum deles considerado infalível, seja na
erradicação da doença , seja na prevenção
de recidivas. A escolha do método deve levar em conta a localização,
a extensão e gravidade da lesão, o estado imunológico
da paciente, bem como custo, eficácia e efeitos colaterais da terapêutica
a ser instituída.
I) Condilomas exofíticos
Lesões condilomatosas isoladas ou esparsas em vulva e vagina podem
ser excisadas com pinças de biópsia, tesouras, alças
de cirurgia de alta frequência (CAF), ou destruídas quimicamente
com aplicação de ácido tricloroacético a 70%
(ATA) diretamente sobre a lesão. A única restrição
ao uso da CAF é em paredes vaginais, devido a dificuldade de controle
da profundidade da excisão. Em colo uterino, além dos tratamentos
excisionais, podemos utilizar ainda termocautério, criocautério.
Por ser de fácil aplicação, temos dado preferência
ao ATA. O procedimento é realizado em consultório e não
requer anestesia. Deverá ser repetido semanalmente até o
completo desaparecimento da verruga. O uso da podofilina não tem
sido recomendado por apresentar resultados semelhantes ao ATA e ser contra-indicado
em superfícies mucosas por possibilidade de toxicidade.
Lesões condilomatosas extensas – Antes de iniciar o tratamento,
verificar a ocorrência de fatores imunossupressores como AIDS, uso
de corticóides, puerpério recente, etc. Caso identifique-se
algum destes fatores, avaliar a possibilidade de melhorar as condições
imunológicas da paciente, o que poderá propiciar redução
considerável da lesão, facilitando o tratamento. Caso não
seja possível, indicar a exérese cirúrgica, em ambiente
hospitalar. Em nosso meio, temos utilizado o laser de dióxido de
carbono, realizado a nível ambulatorial em sessões semanais,
com excelentes resultados clínicos e estéticos. Em casos
recidivantes (pacientes imunossuprimidas), temos associado o uso do 5-FU
local, 1 aplicação a cada 2 semanas, por 20 semanas após
o término da destruição a laser.
II) Lesões subclínicas
HPV diagnosticado apenas pela citologia cérvico-vaginal sem comprovação
à colposcopia deve ser manejado com controles citológicos
e colposcópicos semestrais. Testes de hibridização
molecular podem ser realizados para confirmar o diagnóstico e estabelecer
o tipo de vírus envolvido.
Lesões diagnosticadas pela colposcopia devem ser tratadas a nosso
ver, sob visão colposcópica a fim de evitar destruição
de áreas livres de lesões, bem como assegurar melhores resultados
terapêuticos. O uso do ATA a 70% é o nosso método
de eleição pelos motivos já expostos para lesões
cervicais, vaginais e vulvares. Evitar destruições extensas,
a fim de prevenir complicações como adenose vaginal e vulvodínia.
Em região vulvar, além da alta taxa de lesões falso-positivas,
sabe-se que lesões subclínicas tem pouca importância
em relação ao risco de desenvolverem neoplasia.
III) Lesões associadas às neoplasias intraepiteliais
Lesões cervicais (NIC) – A neoplasia intraepitelial cervical
grau I (NIC I), atualmente agrupada às lesões induzidas
pelo HPV sem neoplasia, são consideradas lesões de baixo
grau. O tratamento é semelhante ao já referido para condiloma
e lesões subclínicas, com preferência pelo ATA e termocautério.
No caso das lesões de alto grau (NIC II e NIC III), o tratamento
mais aceito atualmente é o excisional (conização),
seja com alças da cirurgia de alta frequência ou com laser.
Temos reservado a conização clássica à bisturi
para pacientes com extenso envolvimento glandular endocervical. Tais métodos
apresentam como principal vantagem sobre métodos destrutivos, o
fato de possibilitarem o estudo histopatológico de toda a zona
envolvida. Nos casos de NIC II, tratamentos destrutivos locais, mais conservadores,
podem ser indicados, na dependência da idade e paridade da paciente,
da extensão e da localização da lesão.
Lesões vaginais (VAIN) – Ao nosso ver, o tratamento mais
adequado para tais lesões seria o laser, pela alta precisão
e superficialidade da vaporização. Na impossibilidade de
seu uso, recomendamos a aplicação de ATA regional ou, então,
setorial para as lesões mais extensas. O uso do 5-FU a 5%, sob
rigoroso controle, é restrito aos casos de extensas áreas
de comprometimento por VAIN III, devendo ser recomendado ½ aplicador
semanal, durante 10 semanas. Ao primeiro sinal de sangramento ou hiperemia
intensa da mucosa vaginal as aplicações do quimioterápico
devem ser interrompidas e o caso reavaliado duas a quatro semanas após.
Lesões vulvares (VIN) – Lesões vulvares de VIN I e
II felizmente são pouco comuns e devem ser tratadas como lesões
clínicas ou subclínicas com ATA. Os casos de VIN III associados
ao HPV, são comuns em pacientes jovens e poderão ser tratados
mais conservadoramente com métodos destrutivos, preferencialmente
vaporização à laser, ou excisionais, dependendo da
extensão da doença. Diante do menor indício clínico
ou colposcópico, deve-se afastar a possibilidade de lesões
microinvasoras associadas. Em qualquer forma de tratamento, é necessário
observar margem cirúrgica de 1 a 2 cm.
Tratamentos que estimulem o sistema imune podem ser utilizados isoladamente
ou em associação com outras formas de terapêutica.
Estudos com o uso do interferon sistêmico têm demonstrado
índices de sucesso pouco consideráveis, sendo necessário
o uso de altas doses que, em geral, causam muitos efeitos colaterais.
Os regimes com injeções intralesionais da droga, além
de dolorosos, são prolongados e de alto custo. Mais recentemente,
tem sido descrito o uso de um indutor de interferon e estimulador da imunidade
celular local (citoquinas) denominado imiquimod, com resultados terapêuticos
animadores. No entanto, o seu uso só é recomendado para
lesões verrucosas da pele.
Durante a gestação, o tratamento, quando instituído,
deverá ser o mais conservador possível. Alguns agentes terapêuticos,
como o 5-Fu e a podofilina, são formalmente contra-indicados. Somos
da opinião que as lesões subclínicas, apesar de responderem
razoavelmente ao ATA, medicamento de escolha, não devem necessariamente
ser erradicadas. Remissões espetaculares são observadas
no puerpério imediato. Mesmo nos casos em que existam neoplasias
intra-epiteliais associadas, a conduta deverá ser expectante e
a paciente mantida sob rigoroso controle citológico, colposcópico,
com estudo anátomo-patológico, se necessário. As
lesões verrucosas, inclusive as cervicais, podem ser erradicadas
com a extirpação cirúrgica ou com vaporização
a laser.
Em que pese a possibilidade da contaminação das vias aéreas
superiores do concepto por ocasião de sua passagem pelo canal de
parto, a literatura é concorde em que a indicação
da operação cesariana só deva ocorrer naqueles casos
de condilomas volumosos que oferecem risco de importantes lacerações
e sangramentos profusos por ocasião do período expulsivo.
Embase-se essa conduta no fato de ser bastante raro o papiloma de laringe
na criança nascida de mãe portadora da infecção
pelo vírus.
* Prof. Adjunto Doutor do Depto. de Tocogineco
da UNIFESP
** Pós-Graduanda da Disciplina de Ginecologia da UNIFESP
*** Prof. Adjunto Visitante do Depto. de Tocogineco da UNIFESP
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